Parada cardiorrespiratória: segundos eternos

Sejam bem vindos!!!

Embora muitos já conheçam a fisiologia da Parada cardiorrespiratória (PCR), e muitos também já conheçam as técnicas de atendimento da PCR, neste artigo será abordado o tema mais profundamente, para que o leitor seja levado ao raciocínio e à imaginação.

Um homem chamado João da Silva, 67 anos, pardo, natural de João Pessoa – PB, proveniente do bairro do Grajaú – SP, aposentado porém realiza alguns trabalhos informais como pedreiro, casado, 3 filhos maiores de idade, católico.

Antecedentes pessoais: HAS, DM, DLP, obeso, tabagista 60 anos/maço, ex-etilista, IAM com supra inferior ha 5 anos com ATC DA, GOTA.

Sr João, apesar de ainda realizar alguns “bicos” de trabalho como pedreiro, era o típico aposentado sedentário, não gostava muito de sair de casa.

Um dia Sr João estava trabalhando e percebeu que estava mais cansado do que o normal, ele caminhava apenas alguns metros com sua inchada nas costas e já precisava parar de caminhar para pegar “fôlego” novamente. Quando chegou em casa, estava exausto, apenas foi ao banheiro, tomou um banho, deu um beijo na esposa e foi dormir sem nem mesmo jantar.

Como todas as noites, Sr João dormia muito bem, porém sua esposa nem tanto, pois seu amado marido roncava muito, era muito alto, mas naquele dia ela não acordou com os roncos do marido, mas sim com um grito alto dele.

Sr João acordou com as 4 horas da manhã com uma forte dor no peito, ele não conseguia nem respirar, começou a bater na cama e a empurrar sua esposa, que estava dormindo e acordou assustada com aquela cena. Seu marido segurava o próprio tórax como se alguém tivesse o apunhalado no peito com uma faca, ele gritava de dor, não havia posição que melhorasse aquela terrível sensação de aperto no peito, ele tentava ficar sem respirar para ver se aliviava um pouco a dor mas nem mesmo a ausência de movimentos fazia aquela dor passar.

A dor parecia ser eterna, Sr João dizia que a dor estava se espalhando para o braço esquerdo, sua axila estava “puxando” como se estivesse tendo cãibra, e a ponta dos seus dedos começaram a ficar dormentes, ele estava ficando cada vez mais ansioso conforme o tempo passava e os sintomas aumentavam. Associado à dor torácica, Sr João começou a sentir náuseas e sensação de vômito, mas não conseguia vomitar porque não havia se alimentado muito bem no dia anterior.

Passados 3 minutos de dor, que para Sr João pareciam ser 3 horas de dor, ele começava a se sentir melhor, dizia que a dor estava indo embora e que estava só um pouco cansado. Sua esposa, preocupada, fez o teste de glicemia capilar para verificar a glicemia de seu marido, (89mg/dl), apesar do jejum, Sr João não está hipoglicêmico. Mas não contente, Dn Maria resolveu levar o esposo ao hospital.

Chegando ao hospital, Sr João começa a se sentir mal novamente, talvez fosse a hipoglicemia, talvez fosse o frio de 15°C, ele caminha até a recepção e “desmaia” sobre o balcão de recepção. A recepcionista se assusta mas imediatamente aciona o código de emergência do hospital, onde chegam 2 enfermeiros, 3 técnicos de enfermagem e 1 médico emergencista.

Sr João é colocado deitado numa maca e encaminhado imediatamente à sala de emergência, sua esposa, assustada, foi amparada pelos funcionários do hospital.

Chegando na sala de emergência, o Dr. José identifica a PCR através da análise da ausência de pulso carotídeo e ausência de movimentação torácica concomitantemente com a ausência do nível de consciência, a técnica de enfermagem Joana monitoriza o paciente enquanto o enfermeiro Mário inicia as compressões torácicas. Marta, a enfermeira, faz o gerenciamento do atendimento da PCR através do aplicativo para celular chamado “ACLS Helper”, que ela havia baixado gratuitamente através da Play Store, Claudio o outro técnico de enfermagem garantia um acesso venoso calibroso no paciente e estava responsável pelo preparo e administração das drogas e Paulo outro técnico de enfermagem estava responsável por preparar o material respiratório e auxiliar na alternância do massagista.

Passados 10 segundos do momento em que o paciente foi monitorizado, verifica-se um ritmo cardíaco de “taquicardia ventricular sem pulso”, imediatamente Paulo aplica gel nas pás do desfibrilador bifásico, o Dr. José programa o aparelho para 270 joules de potência, e pressiona as pás cheias de gel no tórax do paciente, o médico solicita para que todos se afastem da cama, inicia uma contagem regressiva de 3, 2, 1 e aplica o choque no tórax do paciente.

Imediatamente Mário retorna às compressões torácicas. Dr. José acopla o ambu-válvula-máscara na face paciente e inicia 2 ventilações a cada 30 compressões torácicas. Enquanto isso Cláudio já havia garantido um ótimo acesso venoso periférico na região cubital do membro superior direito e havia deixado administrando de forma rápida um volume total de 500ml de solução salina conforme solicitação do Dr José.

Passados 2 minutos do início do atendimento, a enfermeira Marta solicita a checagem do ritmo cardíaco, do pulso carotídeo, solicita também a troca na massagem cardíaca entre o enfermeiro Mário com o técnico de enfermagem Paulo. Verificado ausência de pulso carotídeo e ritmo de fibrilação ventricular, o enfermeiro Mário coloca gel nas pás e o Dr. José solicita novamente para que todos se afastem, e após a contagem regressiva de 3, 2, 1 ele aplica novamente a desfibrilação no tórax de Sr João; Sr Paulo inicia as compressões torácicas e Cláudio administra a primeira ampola de 1mg de adrenalina. A importância da enfermeira Marta é fundamental neste momento, pois ao gerenciar o atendimento da PCR, ela coordena o tempo entre um ciclo de massagem e o outro, ela coordena o ciclo de administração de adrenalina, ela tem acesso ao relatório detalhado de tudo que foi realizado neste atendimento, além de ser responsável pela averiguação do motivo que causou a PCR. Neste caso, Marta verificará o resultado dos últimos exames laboratoriais caso o paciente esteja internado, realizará a coleta de dados direcionados ao atendimento da PCR como saber se o paciente era portador de algum antecedente que pudesse contribuir para aquele ocorrido. Verificará se o paciente possui algum sinal de congestão pulmonar após a administração da solução salina, para descartar insuficiência cardíaca por desidratação ou hipovolemia, auscutará as bulhas cardíacas atrás de um possível batimento cardíaco de baixa amplitude abafado por líquido no pericárdio, conhecido também por tamponamento cardíaco, sinais de varízes nas pernas, histórico de trombose venosa profunda para descartar TEP, ela verificará o nível do atendimento da PCR, através dos monitores e capnógrafos para descartar hipóxia e lesão por pneumotórax, verificará se o paciente possui fistulas artério-venosas em seus braços, ou cateteres de hemodiálise, para descartar uma possível hipercalemia, será responsável por saber com familiares se o paciente poderia ter ingerido algo tóxico que pudesse ter levado ele à uma PCR, já o Dr José será responsável pela boa ventilação, por descartar acidose metabólica, administrando bicarbonato de sódio 8.4% (1ml/kg) empiricamente.

Para que tudo saia da melhor forma possível, o paciente sobreviva, uma história seja preservada e uma família continue feliz, depende muito do conhecimento de cada integrante da equipe, e da organização do atendimento, pois em uma equipe onde cada um sabe o seu papel, tudo flui de forma tranquila.

Passados mais 2 minutos, Marta solicita a checagem do ritmo cardíaco, do pulso carotídeo, solicita também a troca na massagem cardíaca entre o técnico de enfermagem Paulo com o enfermeiro Mário. Verificado ausência de pulso carotídeo e ritmo de fibrilação ventricular, Paulo coloca gel nas pás e o Dr. José solicita novamente para que todos se afastem, e após a contagem regressiva de 3, 2, 1 ele aplica novamente a desfibrilação no tórax de Sr João; Mário inicia as compressões torácicas e Cláudio administra 300mg de amiodarona conforme solicitação de Marta. Paulo começa a preparar o material de intubação orotraqueal, pois Marta percebe que a saturação de O2 não ultrapassa 90% já ha algum tempo, Marta solicita que Mário melhore a qualidade da massagem pois o capnógrafo mostrava uma pressão de 06mmHg.

Apesar de todos os esforços, Marta ainda não havia encontrado o motivo que havia levado Sr João à PCR, mas suas hipóteses eram: provável trombose coronária, devido aos fatores de risco e aos antecedentes pessoais, segunda hipótese seria algum distúrbio eletrolítico ou alguma arritmia cardíaca que pudesse ter levado o paciente àquela situação.

Passados 1 minuto da última checagem completa-se 3 minutos da última administração da adrenalina, Marta então solicita para que Cláudio administre mais 1mg de adrenalina, em seguida Dr. José realiza a intubação orotraqueal com a ajuda do técnico de enfermagem Paulo, Mário interrompe a massagem cardíaca para que o Dr. José verifique o posicionamento do tubo e em seguida Paulo fixa o tubo, Dr. José inicia 1 ventilação a cada 6 segundos, ou seja, 10 ventilações por minuto, agora independente das compressões torácicas que antes eram 30:2 agora são no mínimo 120 compressões corridas por minuto durante o ciclo de 2 minutos.

Dr. José percebe que já vai se aproximando de 6 minutos de PCR sem retorno da circulação espontânea e solicita à Cláudio que administre 115ml de solução de bicarbonato de sódio 8.4% conforme o peso do paciente. Esta ação foi realizada com o intuito de manter o pH do sangue do Sr João equilibrado entre 7.35-7.45 evitando assim a acidose metabólica, a deterioração neurológica e a falência múltipla dos órgãos.

Passados mais 2 minutos, Marta solicita a checagem do ritmo cardíaco, do pulso carotídeo, solicita também a troca na massagem cardíaca entre o enfermeiro Mário com o Dr. José, Mário vai para a ventilação do paciente e Paulo fica no auxílio geral. Verificado ausência de pulso carotídeo e ritmo de fibrilação ventricular, Paulo coloca gel nas pás e o Dr. José solicita novamente para que todos se afastem, e após a contagem regressiva de 3, 2, 1 ele aplica novamente a desfibrilação no tórax de Sr João; Dr. José inicia as compressões torácicas e Cláudio administra 150mg de amiodarona conforme solicitação de Marta.

Continua…

Quem gostou pode deixar seu comentário, em breve será postado o desfecho da história.

You might also like

Paciente intubado no pronto socorro

00h10’ Paciente no 3° DIH por choque mixto (cardiogênico +séptico) de foco pulmonar + 2° IOT por rebaixamento do nível de consciência + Insuficiência respiratória aguda, evolui sedado, Ramsay 6,

Questões sobre Sistema Respiratório

1. O sistema respiratório tem função de ofertar oxigênio ao organismo e expelir gás carbônico. O principal músculo que auxilia o processo respiratório é:   a) esternocleidomastoideo.  b) diafragma.  c)

Infarto agudo do miocárdio no pronto socorro

Pré-Cateterismo: 00h45’ João Vieira, 68 anos AP: HAS DM DLP Miocardiopatia Isquemica FE: 38% Ex-Tabagista (20 anos/maço) parou há 30 anos Obeso Paciente proveniente do Hospital Santa Casa com quadro

2 Comments

Leave a Reply